A realidade paralela de Pazuello

O general Eduardo Pazuello, o ministro provisório-definitivo da Saúde, reuniu-se com representantes da Organização Mundial da Saúde por videoconferência, nesta quinta-feira (13,) para apresentar um panorama da situação da da pandemia da Covid-19 no Brasil e as medidas adotadas para o combate da doença. E por alguns instantes sentimos como se tivéssemos nos livrado do pesadelo em que se transformaram nossas vidas nos últimos cinco meses.

No balanço apresentado, Pazuello ressaltou a conquista de mais de 2 milhões e 300 mil pessoas recuperadas e a importância do Sistema Único de Saúde, o SUS, classificando-o como o “principal pilar da resposta”. “Somos o único país do mundo com mais de 100 milhões de pessoas a assegurar acesso integral, universal e gratuito aos mais de 200 milhões de habitantes.”

Mais: O general despejou números e mais números para embasar sua retórica. “Ao SUS, além de 140 bilhões de reais, o governo destinou mais de 42 bilhões exclusivamente ao reforço no combate à Covid-19”. Foram ainda criados 12 mil leitos de UTI, adquiridos 10 mil ventiladores mecânicos, 240 milhões de reais em equipamentos, além de outros 3 bi para emergências. E, claro, a cereja do bolo, a vacina da Universidade de Oxford e que aqui será desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz. “Equipamos nosso sistema de saúde para responder à altura a essa pandemia”, afirmou convicto o general.

O céu que pinta Pazuello é o de um país modelar no enfrentamento da doença. Faltaram alguns detalhes, é verdade. Como o que superamos a marca de 100 mil mortos. Que somos o segundo país em número absoluto de vítimas em escala crescente; que o governo renegou os protocolos preconizados pela própria OMS; que sabotou o isolamento social, conforme orientação de toda a comunidade científica; que o capitão Messias ainda faz propaganda da cloroquina e fez Pazuello assinar protocolo liberando seu uso em qualquer estágio da doença contra toda e qualquer orientação médica, inclusive do Conselho Nacional de Saúde; que o SUS, desde que foi criado, nunca teve a atenção que deveria ter; que, enfim, a verba que que Pazuello diz ter sido destinada ao combate, até final de julho último, não chegava a 1/3 desse valor, o montante liberado por ele, segundo o Tribunal de Contas da União, quando já tínhamos atingido a marca de 80 mil mortos. Hoje essa marca ultrapassa 105 mil.

Dá pra dizer que adoção de tom triunfalista está no DNA dos fardados. Mas ocultar dados sobre a situação, além de ser um desserviço à sociedade (mais um!), ofende a inteligência de vivos e a memória das vítimas. Ok, Pazuello fez menção aos que perderam e ao pessoal da saúde que está na linha frente.

Mas todo o resto parece uma projeção de um universo paralelo em que preferem orbitar. Faltou só a imagem do capitão vociferando “É mentira!”, como quando negou que Amazônia arde em chamas. Inútil se a intenção é se livrar da responsabilidade, porque esse pessoal um dia vai ser cobrado.

De resto, soa inábil, insensato, eleitoreiro.

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