A viola e a soja no saco

E então Sérgio Reis decidiu lançar mão da viola e lançar-se menestrel do golpismo. Pelas redes sociais, engajou-se na convocação de hostes bolsonaristas para megamanifestação na semana do 7 de setembro. Segundo ele, trata-se de um movimento de salvação nacional.

“Vamos fazer um movimento clássico, sem agressões. Queremos dar um jeito de movimentar esse país e salvar o nosso povo. Estamos organizando talvez para 4 a 6 de setembro. Dia 7 de não queremos fazer nada para não atrapalhar o desfile do nosso presidente”, que, segundo ele, “é muito importante”.

De chapelão caubói e se dirigindo ao pessoal de Ponta Grossa, [PR] o sertanejo do asfalto diz que planeja “uma coisa séria”, com “acampamento” e toda a infra básica, avisa que “tem gente que pode se assustar com o movimento, mas é gente da paz”. Essa gente incluiria caminhoneiros, agricultores, monte de artistas e grandes empresários, que “não aguentam mais a situação do Brasil”. “Nós estamos nos preparando judicialmente para fazer uma coisa séria, pra que o governo tome uma posição, o Exército tome uma posição”.

Ninguém ignora que uma convocação dessas tem as digitais do front palaciano. Claro, a ideia surgiu depois que Reis, acompanhado do presidente da associação Brasileira dos Produtores de Soja, Antonio Galvan, esteve em audiência com o capitão.

A natureza da manifestação é que parecia nebulosa. Isso até que uma de conversa de Reis com um amigo teve áudio vazado e ficamos sabendo que a manobra tinha como alvo o impeachment do Alexandre de Moraes e Luís Barroso do STF. E na base da porrada.

A força de ataque seriam caminhoneiros bancados pelo patronato da soja. “Se em 30 dias não tirarem os caras nós vamos invadir, quebrar tudo e tirar os caras na marra. Pronto. É assim que vai ser. E a coisa tá séria.”

Rechaçada pelo presidente do Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas, Plínio Dias, que viu na iniciativa uma tentativa de transformar caminhoneiros em massa de manobra, a tal convocação acabou bombardeada na base. Coube justamente a Blairo Maggi – o rei da soja, o motosserra de ouro, ícone da devastação ambiental do país, nome entre os 10 mais sob acusação de lavagem de dinheiro, peculato e superfaturamento em obras –, o papel de consciência crítica. “Bloquear estradas com caminhoneiros será uma tragédia para o próprio agronegócio. ”

Em vez de se envolverem em ações golpistas, essa turma do atraso, do agro retrógrado, deveria ouvir atentamente o que tem a dizer o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e a comunidade científica sobre o aquecimento global e seus desdobramentos – resultante em grande parte de ações como as do próprio baronato da soja e do gado.

Porque a seguir nesse ritmo de devastação, eles não terão mais nada a fazer senão enfiar a viola e a soja no saco.   O alerta do último relatório do IPCC, divulgado semana retrasada, é claro: “Em 2050, se o limite de 2°C for atingido, muitas regiões terão aumento na probabilidade de vários eventos extremos simultâneos ou sequenciais, afetando, por exemplo, regiões produtoras de alimentos.”

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